Faz três anos e dois meses que entrei no PicPay, e agora tô virando tech manager. Sentei para escrever isso e percebi que precisava começar bem antes, lá no início, para fazer sentido do caminho inteiro. Olhando assim de longe, é louco o quanto mudou. Quando entrei aqui, eu tava descendo um degrau: saí da Total Express como sênior para começar de novo como pleno, porque sabia que a régua aqui era outra e o salário também. Cargo nunca foi o que me prendeu, o que prende é com quem eu vou trabalhar e o tamanho do desafio que tô assumindo. E uma empresa do tamanho do PicPay eu tinha certeza que teria os dois de sobra: gente que me fazia correr atrás pra não ficar pra trás, e desafio que não cabia na cadeira em que eu entrei. O caminho foi rápido por causa disso, virei sênior, depois tech lead, e agora tech manager. Três anos para evoluir mais do que nos dez anteriores somados.

Fico pensando no porquê dessa diferença, e a resposta nunca é esforço. Esforço eu sempre tive, obstinação também. O que mudou foi ter referência do lado. Porque sozinho você não sabe o que não sabe, fica achando que o pedaço de mundo que enxerga é o mundo inteiro. Você anda em círculos achando que tá indo para frente, repete os mesmos erros com nomes diferentes, e a única régua que sobra é a sua, baixa porque você não viu outra. E eu sou uma pessoa que sempre aprendi por referência, vendo gente boa fazer, no emprego, na comunidade, em qualquer canto da área. Trabalhar perto de gente foda é o que faz a régua aparecer: você olha para cima e enxerga onde dá para chegar, começa a trabalhar para subir, e quando chega descobre que tem outra régua mais alta esperando. Aí o ciclo recomeça. Não precisa ser mentor formal nem nada estruturado, basta enxergar gente fazendo o que você ainda não sabe fazer, e a régua aparece.

[!IMPORTANT] Esse texto cobre de 2011 até mais ou menos 2020, a fase em que eu fui programador sem saber direito que era programador. É registro pessoal, fica aqui nos confins da internet para um tataraneto meu achar um dia. Mas também é um relato sobre como essa área funciona pelo lado de baixo, como a evolução das pessoas funcionam por dentro, e como dá para crescer mesmo quando você tá numa caverna sem saber que tá. Se você tá no começo de carreira, ou só tem curiosidade de como alguém entra nessa área sem trilha clara, talvez tire daqui alguma coisa pro seu caminho.

O primeiro contato

Em 2011 eu tava no último ano do ensino médio, com 17 para 18, e gostava de fuçar em fórum e jogar videogame. Programação, para mim, não existia. Ou melhor, existia, eu só não chamava aquilo de programação. Eu mexia em computador o suficiente para abrir MSN, garimpar jogo pirata no ThePirateBay, ler tópico aleatório no Orkut sobre como deixar o Windows mais rápido. Coisa de adolescente com PC naquela época, nada de especial.

Mas ali já tinha uma faísca, vinda de um ou dois anos antes: rodar um servidor privado de Team Fortress 2. Nessa fase eu virava madrugada jogando online. O game era um FPS que a gente chamava carinhosamente de TF2, daqueles que inspiraram um monte de outros que vieram depois: times, personagens com habilidades distintas, cada um com seu papel. A gente jogava em servidores públicos abertos e numa dessas descobri que dava para ter o meu, customizado, com mapa, regra e modo do jeito que eu quisesse. Bastava instalar monte de coisa no terminal socorro. Subi o servidor na minha máquina, naquela internet via rádio de 10 megas. Aprendi a mexer em terminal ali: abria o arquivo de configuração, editava porta na mão para galera externa conectar, descobria na unha o que cada parâmetro fazia. Era a primeira vez que eu tava fazendo a máquina fazer o que eu queria, e não o contrário. Não chamava aquilo de programação. Chamava de “mexer no servidor”.

Mas aquilo ficou ali, como passatempo de madrugada. O que mudou de fato foi o que apareceu na sala de aula. Num dia qualquer chegou uns cara oferecendo curso de web design. HTML, CSS, JavaScript, Dreamweaver, Fireworks, Flash, e o pacote Office por cima. Naquela época isso era comum, vendiam curso de Office, de Windows, de manutenção de PC direto para galera dentro da escola. Eu olhei aquilo, não entendi quase nada, mas pensei “ah, vai ficar legal no currículo”. Tava montando currículo para começar a fazer estágio, e qualquer linha a mais ali parecia importante.

Minha mãe me ajudou a custear o cursinho. Não lembro quanto custou, mas ela bancou uma parte. E eu comecei achando que ia sair de lá sabendo fazer site.

[!NOTE] Eu sou um cara que guarda tudo. Backup, Drive, e-mail, nuvem, não consigo deletar nada. Quando fui fuçar para escrever esse texto, achei nos meus e-mails os exercícios da segunda aula desse curso, datada de 18 de março de 2011. Eu enviava o HTML que escrevia em sala para mim mesmo, todo final de aula, para ter cópia. O garoto do passado salvou o presente.

O que eu aprendi ali não foi nada demais. Lista no HTML, div com cores diferentes para montar layout, tabela para entender o que era cabeçalho, rodapé e menu lateral. Mexi um pouco em Fireworks, que era tipo um Photoshop rudimentar para assets de web. Encostei no Flash, aprendi timeline, frame, desenhar bonequinho e fazer ele se mover. Sem saber, essa base de animação ia me ajudar anos depois quando eu tive um canal e editava vídeo.

Provavelmente o primeiro HTML que escrevi na vida, 18 de março de 2011

Mas o que mudou tudo veio no fim do curso, e olhando hoje eu sei que era golpe puro com a minha ingenuidade. Na época não. Na época era a maior oportunidade da minha vida. O professor tinha uma software house, fazia site para vender. Um dia ele virou e falou pros alunos: “quem quiser fazer template para mim, eu pago R$100 por layout”.

R$100. Por template. Eu fui para casa fazendo conta na cabeça.

Vou ser web design

Eu trabalhava de balconista numa ferragem na época. Ganhava salário mínimo atendendo o público, mas volta e meia chegava caminhão de cimento, tijolo e areia, e era todo mundo no pátio carregando e descarregando. Atender era OK, mas o pátio era pesado, e eu tava de saco cheio. Aí veio o professor com a oferta dos R$100, e o meu cérebro de 17 anos fez a conta mais otimista da minha vida: se eu fizer dois layouts por semana, é R$800 por mês, já é mais que o salário mínimo. Se eu fizer três, é mais ainda. Tô feito.

Aula montando layout no já saudoso Dreamweaver, 8 de abril de 2011

Pedi demissão. Cheguei na minha patroa, falei que ia virar web designer profissional, que tinha uma oportunidade com o meu professor. Ela me apoiou. Minha mãe me apoiou. Era tudo perfeito (caralho da vontade de rir).

Sentei na frente do computador na semana seguinte, desempregado, e o professor me mandou o primeiro template. Ele tinha desenhado no Fireworks, e eu tinha que transformar em HTML e CSS. Demorou uma semana inteira. Ficou uma das coisas mais horríveis que eu já vi na vida. Mandei. O professor olhou e falou que outra aluna já tinha entregado.

Ela se chamava Larissa, ou Laís, eu não lembro o nome direito, sei que começava com L. Era a destaque da turma. Enquanto eu fazia duas div coloridas e uma tabela com lista dentro, ela tava entregando layout com degradê. Em 2011, com Fireworks, no meio de um monte de molequinho perdido. Os layouts iam todos para Larissa, e eu fiquei sem freela, sem ferragem, e sem ideia do que fazer.

Não sabia procurar coisa na internet na época, nem que existia Stack Overflow ou fórum de dev. Fiz o curso, achei que era o suficiente, e quando bateu de frente com a realidade, congelei.

Olhando hoje, eu sei que o problema não foi o curso, foi o que o curso não me deu. Ninguém me ensinou a procurar fora dele, a achar onde tinha gente discutindo o que eu fazia. Essas coisas deveriam ser ensinadas tanto quanto HTML e CSS, e não são. Saí dali com certificado e sem mapa, e foi isso que me derrubou.

Esteira industrial

Acabei pegando um emprego numa empresa que montava esteira industrial. Fiquei um ano lá. Era pior que a ferragem, porque pelo menos na ferragem tinha o atendimento, tinha alguma coisa para conversar. Na esteira era ferro, parafuso, peso e silêncio.

Um dia o cara me chamou e falou que ia me demitir. Disse “eu acho que vai ser melhor para ti, tu é muito melhor que isso”. E ele tinha razão. Eu trabalhava mal lá, com má vontade, preguiçoso. Não era preguiça de fazer, era preguiça de existir naquele lugar.

Saí dali sem rancor, mas com a sensação de que eu não sabia o que fazer da vida. Aos 19 já não é adolescente, mas também não é adulto, e os amigos da escola já tinham faculdade ou emprego que fazia sentido. Tinha tentado web design e tinha tentado trabalho braçal, e tudo tinha dado errado. E aí veio o Facebook salvar minha carreira.

Telecom

Tava deitado na cama uma tarde, abri o Facebook, e tinha um post de uma amiga minha compartilhando uma vaga de suporte técnico numa Telecom da cidade. Era 2012, eu tinha uns 18 para 19 anos. Suporte técnico em provedor de internet via rádio, 10 megas de velocidade, daqueles que a torre ficava em cima da casa do vizinho. A internet que eu usava em casa, inclusive.

Montei o currículo, mandei, fui chamado. Cheguei na entrevista e me sentei na frente de três caras: o dono, o sócio, e o desenvolvedor. O desenvolvedor era o Maicol.

Curriculum / 2012

Eles me entrevistaram pro suporte. Aquele suporte clássico, “a luzinha do roteador tá acesa? tira e bota da tomada de novo”. O trabalho era esse. Só que uma das coisas que pesou na minha contratação foi exatamente o certificado de web design. Não por causa do suporte, mas porque o sistema interno da Telecom era em PHP, escrito paraticamente sozinho pelo Maicol, e a ideia era que algum dia alguém pudesse ajudar ele. Quem soubesse web design, na cabeça deles, ia conseguir ajudar.

Eu não sabia nada de PHP. Mal sabia HTML direito. Mas falei aquela frase que eu falo até hoje em toda entrevista que eu faço: “eu não sei, mas eu aprendo”. E foi exatamente o que aconteceu.

Fiquei uns dois anos só no suporte. Atendendo telefone, mandando o cliente tirar a luzinha do roteador da tomada, configurando antena de rádio. Até que num dia o Maicol chegou perto e falou que precisava de ajuda. O sistema da Telecom era todo dele, ele que tinha escrito a primeira versão sozinho, e agora tava reescrevendo do zero porque a V1 já tava velha e arcaica. Tinha começado uma V2 e não dava conta sozinho. Era início das minhas férias. O patrão tinha pagado um curso de PHP em vídeo para ele anos antes, dos mais conhecidos da bolha brasileira na época, e ele falou que ia pagar o mesmo curso para mim. Era um bom começo para quem não tinha nada, mesmo que hoje, olhando para trás, eu veja o quanto esse curso já tava ficando datado no conteúdo.

[!NOTE] A ideia era que eu usasse as férias inteiras para estudar. Eu peguei os últimos dois dias. Assisti todos os vídeos correndo, cheguei no dia seguinte ao trabalho e falei “tô pronto, sei PHP”. Não sabia.

E foi aí que eu virei programador. Não tinha certificado, não tinha noção, e a única referência era o Maicol, que tinha aprendido paraticamente sozinho, ou em curso online. E foi o começo da parte mais maluca da minha carreira.

Codando direto em produção via Samba

Os anos seguintes foram absurdos. Eu e o Maicol tocando a V2 do sistema da Telecom inteiro, sozinhos. O sistema tinha quase dez mil clientes integrados, módulo financeiro, controle de cliente, faturamento, suporte. Tudo em PHP, tudo escrito por nós dois.

E a gente codava direto em produção. Literalmente. O servidor de produção tinha uma pasta compartilhada via Samba, e a nossa máquina de desenvolvimento se conectava nessa pasta como se fosse um drive local. Eu abria o arquivo PHP, editava, salvava, e a alteração tava em produção no mesmo segundo. Não existia branch nem staging nem rollback. Existia o arquivo, e existia o arquivo depois da minha alteração.

Quando a gente ia mexer numa parte mais sensível, tipo o módulo financeiro, eu falava com a equipe: “pessoal, não usem o financeiro por uma hora, a gente vai mexer”. E saía mexendo na tela que tava rodando. Cliente fazendo requisição, eu salvando arquivo, e torcendo para não dar erro de sintaxe no meio do salvamento.

Sem teste unitário, integração, sem nada. Eu nem sabia que existia isso. Versionamento de código, então, jamais. O backup era CTRL+C do arquivo numa pasta com o nome do dia. modulo_financeiro_20160812.php, modulo_financeiro_20160812_v2.php, modulo_financeiro_20160812_v2_FUNCIONA.php. O meme de backup era o que eu usava.

E foi assim por quase seis anos.

Olhando hoje, eu sei que isso é o pesadelo de qualquer engenheiro decente. O módulo financeiro de quase dez mil clientes dependia de eu não dar enter no lugar errado, e a única coisa entre um erro de sintaxe e a fatura não saindo no fim do mês era a minha atenção. Mas eu também aprendi muito ali, porque não tinha para quem perguntar e tudo caía no meu colo. Aprendi a configurar servidor Linux do zero, a tunar MySQL, a fazer backup manual, a debugar bug em produção com var_dump jogado no meio do código. Aprendi a ter autonomia, porque quando a coisa quebrava, era a gente que arrumava. Não tinha plantão, não tinha PagerDuty, não tinha postmortem. Tinha eu, o Maicol, e o telefone tocando.

Foi uma escola. Uma escola estranha, isolada, mal calibrada, mas escola.

A consultoria

Em algum momento por volta de 2017 ou 2018, a empresa quis modernizar o sistema. A gente sabia que tava antiquado, mas não sabia nem por onde começar a melhorar. E aí o patrão contratou uma consultoria. Quem chegou para fazer essa consultoria foi um cara que hoje é um grande amigo meu, o Jackson Mafra.

O Jackson sentou ali e em duas semanas explodiu a minha cabeça. Olhou pro nosso sistema, olhou para gente, e foi perguntando uma coisa de cada vez:

[!NOTE] “Vocês não usam Docker?”

“Vocês não têm CI/CD?”

“Vocês não versionam código?”

“Vocês não usam Git?”

Eu fiquei seis anos naquela empresa sem saber o que era Git. Seis anos. Quando o Jackson explicou, eu tive aquela sensação de quem descobre que a porta da prisão sempre esteve destrancada. Eu tava mexendo em arquivo via Samba enquanto o mundo já tinha pull request, code review, branch, merge, deploy automatizado, ambiente containerizado.

Não era preguiça nossa. Era falta de referência. A gente não conhecia ninguém de fora, não lia nada de dev. Comunidade, então, nem se falava. O Stack Overflow a gente usava de vez em quando, mas só para resolver erro pontual, nunca para aprender padrão. Vivia numa caverna, e a caverna parecia normal porque não tinha como comparar.

O Jackson implementou Docker, configurou Git, montou um pipeline de deploy. Mas o que ficou mesmo foi a sede. Eu queria entender tudo aquilo. Falou de comunidade, de boas práticas, de Clean Code, arquitetura, design pattern. Depois do Maicol, foi o segundo cara que me abriu a cabeça, e dessa vez o salto foi outro: o Maicol tinha me ensinado a codar o php das ruas, o Jackson me mostrou que existia um universo inteiro de dev fora da caverna.

Hoje o Jackson tá na Europa, trabalhando para empresa gringa, dando palestra em inglês. A gente conversa de vez em quando. Eu devo muito a esse cara. Sem ele eu ia ficar mais uns cinco anos achando que Samba era padrão de mercado, e o pior é que ia tá feliz com isso.

Sistema V3

Depois que o Jackson saiu da consultoria, eu fiquei com aquela animação típica do desenvolvedor que acabou de descobrir um framework novo. “Agora eu sei tudo. Vou reescrever o sistema. V3 vai ser o futuro.” Peguei o Yii 2, que era o queridinho da época em PHP, com migration, model, validation, tudo num pacote só, e comecei a redesenhar o sistema inteiro do zero. Codinome do projeto: Rabbit.

Trabalhando no V3 numa salinha sem janela, 2019

Passei uns seis meses trabalhando sozinho nesse V3, aplicando todas as boas práticas que eu tinha acabado de descobrir. Migration para cada alteração de tabela, model para cada entidade, value object, service, validator. Tudo bonitinho, tudo separado. Remodelei o banco inteiro para fugir das aberrações do V2, que tinha tabela com cinquenta colunas, uma tabela por relatório, coisa que eu sabia que era errada, mas não sabia explicar por quê. Agora eu sabia.

Eu ficava olhando pro código e achando lindo, tipo adolescente olhando o primeiro carro. Só que lindo não é maduro. As boas práticas que eu tinha pego com o Jackson eram pouco perto do que um sistema daquele tamanho pedia. Não sabia modelar de verdade, não sabia mapear domínio, não sabia escrever teste. Conhecia o nome das coisas e o jeito que apareciam nos exemplos do framework, mas a distância entre conhecer e saber aplicar num sistema com quase dez mil clientes em produção era enorme, e eu ainda não tinha noção do tamanho dessa distância.

A migração de dados era só o sintoma mais visível. O script em PHP que eu escrevi para trazer os dados do banco velho pro novo era uma maracutaia que rodava bonitinho no meu ambiente, mas em produção ia ser outro filme. E o mesmo padrão valia para tudo: cada peça do V3 tava feita com a base que eu tinha, e a base não era suficiente.

Mas, no fim, não foi nem isso que matou a V3.

A dupla dinâmica

A fusão veio sem aviso. O patrão fechou negócio com outra empresa amiga, também de Telecom, para construir um sistema único que servisse as duas. Juntar os devs, juntar as cabeças, e fazer algo melhor do que cada uma sozinha conseguia. para ajudar nessa construção contrataram dois arquitetos de fora, e quando o nome do primeiro apareceu na minha caixa de e-mail eu não acreditei: era o mesmo cara que tinha explodido a minha cabeça algum tempo antes. O Jackson tava de volta. Junto com ele veio o Rodrigo Borges.

O Rodrigo virou o meu terceiro mentor, e foi o mais barulhento dos três. De convivência não era o cara mais fácil do mundo, tinha um jeitão difícil, opinião forte demais, palavrão fácil e pouca paciência com quem não tava no ritmo dele. Mas como colega de trabalho naquele momento foi um dos caras que mais me empurrou para frente. Chegou jogando livro na minha cara. “Como é que tu não leu Clean Code? Como é que tu não leu Refactoring? Como é que tu não conhece DDD?” Xingava muito, mas xingava de um jeito que tu saía do café com vontade de ler o livro inteiro no mesmo dia. O Maicol tinha me dado o básico, o Jackson tinha me mostrado que existia mundo lá fora. O Rodrigo chegou para me dizer que existia teoria, e que eu tava perdendo tempo sem ela.

Grande Jackson Mafra, Janeiro 2020

Foram dois ou três meses só conversando arquitetura. Café, quadro branco, e os dois caras me mostrando como pensar em sistema antes de sair codando. Um dia o Rodrigo virou para mim e falou “desenha aí o fluxo em BPMN”. Eu nunca tinha ouvido falar de BPMN na vida. Foi assim que eu aprendi. Hoje eu uso para tudo que é fluxo, e isso veio dali.

Foi nessa fase que a minha autoestima começou a subir. Eu olhava pros caras conversando comigo de igual para igual sobre modelagem e pensava “espera, eu não sou tão ruim assim”. Eu era um dev júnior que tinha sido puxado para arquitetar um sistema que ia rodar em duas Telecoms do estado. Não fazia sentido eu estar naquela cadeira. Mas eu estava. E foi a primeira vez que eu me vi como alguém que sabia o que estava fazendo.

Hoje, com a cabeça que eu tenho, eu olho para trás e penso no que dava para ter feito ali. Se eu tivesse o conhecimento que tenho agora, com aquele time, naquele contexto, dava para ter virado um sistema de verdade. Dava para ter chegado em cem mil clientes, com um time bom em volta e algo que de fato saísse do papel. A empresa tinha espaço, eu é que não sabia ocupar. É um pensamento que não me persegue, mas aparece de vez em quando.

Foi também naquela fase que eu fui no meu primeiro evento de comunidade. O Jackson e o Rodrigo me levaram num meetup do PHP RS em Porto Alegre, depois eu fui em mais um. Era pequeno, umas dez, quinze pessoas dividindo conhecimento numa sala apertada. Eu mal entendia direito o que tava sendo discutido, mas foi ali que conheci o Igor, que hoje é amigo de comunidade. E foi a primeira vez que eu vi um grupo de dev junto, conversando sobre código fora de uma sala de empresa. Cinco anos depois eu tava de volta nesse mundo, do outro lado, palestrando e escrevendo, caminho que já contei com calma em outro post.

Oportunidades de pandemia

A V3 nunca saiu. Não foi por falta de arquitetura, tinha arquitetura demais, na verdade. A empresa era desorganizada, os prazos eram daqueles que aparecem na reunião sem ninguém ter perguntado quanto tempo de verdade era preciso, e a gente codava o que achava que era certo porque não tinha ninguém para validar antes. Com a burocracia que a gente tava colocando para fazer certo, ia demorar demais. E aí veio a pandemia.

Em 2020 começamos a trabalhar de casa, o Jackson e o Rodrigo saíram do projeto, e ficou só eu tentando tocar a V3 sozinho de novo. Os dois já estavam de saco cheio antes da pandemia. A empresa tinha lá os comportamentos tóxicos dela, e eles eram contratados de fora para tocar um projeto que ninguém priorizava de verdade. A gente nunca falou abertamente sobre isso, mas dava para sentir. E foi quando o mundo mudou. Pós-pandemia, as vagas de tech explodiram. Recrutadora começou a chegar de tudo quanto era empresa da capital, com proposta que, para um dev de uma Telecom semi-interior, parecia absurda.

Eu nunca tinha sido júnior formal nem pleno formal. Lá dentro eu era só “o desenvolvedor”, sem cargo, sem trilha. Aí me ligaram oferecendo pleno direto, com salário que era paraticamente o dobro do que eu ganhava. A ansiedade e a autoestima brigaram a semana inteira. De um lado, o conforto de uma empresa pequena onde eu era a referência. De outro, a chance de ser júnior no mundo de verdade. Mas aceitei. Em 2020 eu saí da Telecom para ser dev pleno numa fábrica de software, e ali eu saí da caverna de fato.

Quando eu caí fora, foi virada de chave. Pela primeira vez na vida eu ia trabalhar com time de dev, e não com o dev. Ia conhecer scrum master (que, pelo amor de Deus, por que que existe), ia conhecer PM, PO, ia ver como uma empresa de software de verdade se organiza por dentro. Coisa que para mim, em 2020, soava como ficção. Mas isso é assunto pro próximo post.

A janela que abriu

Eu não acredito em destino. Mas acredito em janela, janela de oportunidade. A vida é cheia delas, e muita gente passa do lado sem ver. Às vezes tu enxerga a janela e finge que não viu, porque ela dá medo. Às vezes tu nem percebe que tinha uma ali, e ela fecha. E em raros casos a janela abre, tu vê, e tu pula. Não importa se tu tá pronto, porque pronto a gente nunca está. Importa só que tu pulou.

A minha começou num servidor de Team Fortress 2 que eu subia de madrugada por hobby. Daí veio o cursinho de web design vendido na sala de aula, o freela que deu errado, a ferragem, a esteira industrial, a Telecom que me adotou, três mentores que apareceram em sequência, e oito anos numa caverna que eu nem sabia que era caverna. Nenhum desses passos foi planejado. Nenhum deles fazia sentido isoladamente. Mas, no conjunto, eles montaram um cara que, quando a janela seguinte abriu em 2020, tinha repertório para pular.

Olhando hoje, eu tenho duas verdades que vivem juntas. Oito anos é muito tempo, e nesses oito anos eu evoluí menos do que evoluí nos três que vieram depois. Foi escola e foi tempo perdido ao mesmo tempo. Mas a janela só abriu porque eu tava pronto, e eu só tava pronto porque os oito anos ali tinham me forçado a estar. Servidor Linux, banco, rede, hardware, suporte de ponta a ponta, processo inteiro de um sistema rodando numa Telecom de verdade. Foi ali também que eu me apaixonei por banco de dados, e essa eu já contei num outro post. Tudo isso veio antes da bolha dev existir para mim. Foi escola sem nome de escola.

E tudo isso eu aprendi sozinho. Faz mais de dez anos que eu trabalho com programação e nunca fiz faculdade. Aprendi pela internet, fazendo curso online, lendo livro, errando em produção, apanhando dos mentores certos. A faculdade talvez tivesse me poupado de passar seis meses reinventando roda que tava no capítulo dois de algum livro. Mas é o caminho que deu, e o caminho que deu foi o que me trouxe até aqui.

E olhando assim, tudo enfileirado, dá para sentir o tamanho do acaso. O moleque que subia servidor de TF2 no quarto não tinha plano, não tinha mapa, não conhecia uma pessoa sequer que vivesse de programar. Era curiosidade, teimosia, e a sorte de ter aparecido gente no caminho que enxergou algo ali. Cada passo torto, cada chefe esquisito, cada mentor difícil, virou repertório. Hoje, escrevendo isso, dá vontade de voltar lá e avisar pro moleque que dá certo, mas não do jeito que ele acha. Dá certo do jeito que precisa dar.